Bahia tem deficit de14,5 mil policiais militares em relação ao efetivo necessário, diz TCE
Um relatório técnico de auditores do Tribunal de Contas do Estado (TCE) da Bahia aponta um déficit de 14.595 policiais militares. Para ilustrar a magnitude desse número, o documento compara a falta de efetivo com a ausência de todos os moradores em 12 cidades baianas de pequeno porte, como Lagoa Real e Adustina. O número de vagas em aberto é maior que a capacidade total do Centro de Convenções de Salvador, que comporta 14 mil pessoas.
De acordo com a lei estadual em vigor (Lei nº 13.201/2014, atualizada pela Lei nº 14.567/2023), a Polícia Militar da Bahia (PM-BA) deveria ter 44.767 policiais na ativa, sendo 5.371 oficiais e 39.396 praças. Para tentar diminuir a falta de profissionais, 1.049 policiais da reserva foram recontratados. Assim, no ano passado, o efetivo total da corporação chegou a 31.221, o que reduziu o déficit para aproximadamente 13 mil agentes, segundo o TCE.
O coronel reformado da PM-BA e professor de Direito, Antônio Jorge Melo, explica que a falta de policiais sobrecarrega os profissionais e aumenta a carga horária de trabalho.
“Observamos que, não raramente, os policiais trabalham em escalas extras, além da jornada normal. Isso acontece para compensar a falta de efetivo. Essa situação afeta a saúde dos policiais e provoca um desgaste operacional”, afirmou.
Segundo o professor, cerca de 500 policiais saem da corporação anualmente, devido a aposentadoria, problemas de saúde ou outros motivos. Para impedir a diminuição contínua do efetivo, o governo estadual precisa de um “recompletamento permanente” de vagas.
No relatório de contas do governo de Jerônimo Rodrigues (PT) referente a 2024, o conselheiro Inaldo da Paixão Araújo destacou que a Bahia está bem abaixo do padrão internacional de um policial para cada 300 habitantes. Atualmente, o estado, com 14,1 milhões de habitantes, conta com apenas um policial para cada 412 pessoas. Apesar da realização de concursos, o conselheiro ressaltou que a “defasagem estrutural permanece significativa”.
O major Igor Rocha, presidente da Força Invicta (Associação dos Oficiais Militares Estaduais da Bahia), defende que a Bahia não tem apenas um efetivo insuficiente, mas também uma tropa desvalorizada. Para ele, a baixa remuneração e a falta de incentivos levam muitos policiais a buscar oportunidades mais atrativas em outras instituições. “A ausência de valorização afasta os bons profissionais. É necessário um debate amplo sobre segurança pública, com a participação de todos os setores da sociedade”, afirmou.
Tarcísio Pedreira (União Brasil), prefeito de São Gonçalo dos Campos, município próximo a Salvador, também critica a falta de investimento. “Falta uma infraestrutura digna para policiais civis e militares, armamento moderno, salário justo, combustível suficiente para atender a cidade inteira, incluindo a zona rural, e computadores que funcionem nas delegacias. Em suma, falta um governador que valorize os policiais”, declarou.
O relatório do TCE também aponta a lentidão no aumento do efetivo policial na Bahia. Entre 2023 e 2024, o número de policiais cresceu apenas 252.
O pesquisador em segurança pública Fabrício Rebelo avalia que a violência na Bahia atingiu um ponto crítico. Segundo ele, o estado precisa de medidas mais robustas para conter a criminalidade. “Estamos em uma situação de crise. A cada ano, a crise de criminalidade avança e a demanda por agentes de segurança aumenta. Não precisamos mais de equilíbrio, e sim de ações para conter a crise, que já é gravíssima”, ponderou.
O Outro Lado
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou que, nos últimos dois anos e meio, o governo contratou 6 mil novos policiais militares e civis, peritos e bombeiros. Além disso, 2 mil novos PMs e bombeiros estão em curso de formação, com previsão de nomeação no próximo ano.
A SSP-BA ressaltou que o governo realizou “quatro concursos simultâneos para as Forças de Segurança, garantindo, em 2025, os maiores efetivos já registrados pelas instituições”. Também mencionou a recontratação de cerca de 2 mil policiais e bombeiros da reserva para reforçar a segurança nas ruas. Por fim, a secretaria destacou que os concursos para as Forças Policiais e de Bombeiros continuarão sendo realizados anualmente para aumentar o efetivo e manter a redução dos índices de criminalidade.
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