Mensagens revelam como empresário tentou driblar CPMI do INSS
Mensagens recuperadas do telefone do empresário Maurício Camisotti sugerem um possível esforço para influenciar ou atrapalhar os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As informações foram veiculadas pelo portal Metrópoles nesta terça-feira, dia 28.
Camisotti se encontra detido sob a acusação de envolvimento em um esquema de fraudes multibilionárias contra aposentados da autarquia previdenciária. A Polícia Federal (PF) apurou que ele articulava com aliados na esfera política maneiras de evitar ser convocado para depor na CPMI e de proteger executivos ligados às suas corporações.
Os diálogos interceptados ocorreram entre 22 de agosto e 11 de setembro, um dia antes da prisão de Camisotti. As conversas incluem o advogado Nelson Wilians e um contato anônimo, registrado no dispositivo como “GS-USA”. Nelas, são mencionados congressistas como o senador Izalci Lucas (PL-DF), que solicitou a convocação do empresário, e os deputados Luciano Zucco (PL-RS) e Paulo Pimenta (PT-RS).
O empresário expressava preocupação com sua reputação e com a chance de sua esposa e de diretores das empresas Rede Mais e Total Health serem chamados para depor.
Parte das mensagens foi enviada utilizando um recurso que exclui automaticamente o conteúdo após 24 horas. A PF ressaltou que, apesar de o conteúdo das mensagens não configurar um delito por si só, ele demonstra a facilidade de acesso de Camisotti a esferas de poder.
Em um trecho, o contato “GS-USA” relata ter participado de um encontro com “um deputado do Sul”, uma referência a Zucco. Em outra troca, a mesma pessoa descreve uma reunião em uma churrascaria na capital paulista, onde o assunto teria sido discutido com outras seis pessoas, entre elas Rodrigo Califoni, um executivo do grupo de Camisotti.
Negação dos Parlamentares e Desdobramentos da Investigação
Apesar das manobras, a convocação de Camisotti foi rapidamente aprovada pela CPMI. O acesso aos seus dados sigilosos (quebra de sigilo) foi autorizado duas semanas depois. No dia seguinte, ele recebeu a ordem de prisão preventiva e permanece custodiado na sede da PF em São Paulo.
A PF aponta o empresário como o suposto beneficiário central do esquema de cobranças indevidas nos benefícios de aposentadoria. As empresas por ele controladas, como Ambec e Rede Mais, teriam movimentado valores que, segundo os investigadores, ultrapassam a marca de R$ 1 bilhão. O empresário, contudo, nega as acusações.
Os políticos citados se distanciam das alegações:
- Izalci Lucas garantiu nunca ter se comunicado com os investigados, afirmando que sua atuação na CPMI é pautada pela técnica e transparência. Ele ainda destacou ter sido o autor do pedido de convocação de Nelson Wilians.
- Paulo Pimenta negou qualquer contato com Camisotti ou seus associados, ressaltando que protocolou diversos requerimentos contra o grupo empresarial. Ele também informou ter votado a favor tanto da quebra de sigilo quanto da prisão do empresário e de sua mulher, Cecília Montalvão.
- Luciano Zucco refutou qualquer envolvimento com os nomes mencionados e qualificou os envolvidos como “lobistas vagabundos”. O deputado negou ter participado das reuniões citadas nas mensagens e defendeu a punição dos responsáveis pelas fraudes.
“Nunca ouvi falar de reunião alguma”, declarou Zucco ao Metrópoles. “Não conheço nenhum desses personagens e nunca conversei com nenhum deles. Pelo que vi agora, parece que se trata apenas de dois lobistas vagabundos tentando vender a um outro vagabundo uma influência inventada para proteger os vagabundos que roubaram os velhinhos do INSS.”
Defesas Contestam as Acusações
Nelson Wilians argumentou que as mensagens foram descontextualizadas, tratando-se de uma relação profissional legal e regular entre advogado e cliente. Ele acrescentou que a defesa já entregou às autoridades toda a documentação necessária para comprovar a legalidade dos diálogos.
A defesa de Camisotti também negou qualquer tentativa de obstrução da Justiça. Em comunicado, afirmou que as mensagens trocadas abordavam temas dentro da lei e que o empresário se mostrou disposto a cooperar com o inquérito
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