Saúde Mental: Internações de crianças e adolescentes dobram na Bahia em cinco anos
Dados do SUS revelam crescimento de 103% nas hospitalizações psiquiátricas entre jovens de 0 a 19 anos; especialistas apontam o uso excessivo de telas como fator agravante.
Por Redação
A infância e a adolescência, períodos historicamente associados à descoberta e ao lazer, enfrentam hoje uma “crise silenciosa”. De acordo com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, o número de internações por transtornos mentais e comportamentais na faixa etária de 0 a 19 anos dobrou na Bahia em um curto intervalo. Em 2020, o estado registrou 237 ocorrências; em 2024, o número saltou para 482 — uma alta expressiva de 103%.
O crescimento entre os jovens é desproporcional quando comparado à população geral. Enquanto as hospitalizações de crianças e adolescentes mais que dobraram, o aumento na média de todas as idades foi de 40,6% no mesmo período. A tendência de alta permanece: até novembro de 2025, o estado já contabilizava 447 internações de menores.
O impacto da pandemia e das telas
Para a psicóloga Bianca Reis, mestra em Família na Sociedade Contemporânea, o cenário começou a se desenhar em 2010, mas foi catalisado pela pandemia de Covid-19. “Crianças de seis a 11 anos estão sendo diagnosticadas com depressão mais frequentemente. O uso excessivo de telas e redes sociais, que antes era visto apenas como um ‘inflamador’ de traços de personalidade, hoje é reconhecido como uma causa direta”, explica.
A tese é reforçada por um estudo da Faculdade de Medicina da UFMG, que associou a exposição digital prolongada a um aumento de 72% nos casos de depressão infantil. O tema ganha força neste mês com a campanha Janeiro Branco, que em 2026 adota o lema “Paz, equilíbrio, saúde mental”.
Quando a internação é necessária?
Diferente do estigma de “isolamento” do passado, a internação hospitalar hoje é vista como um recurso estruturante. Ela é recomendada quando há risco de vida ou quando a instabilidade emocional impede a criança de realizar tarefas básicas.
“Muitas vezes, pensamos que a pessoa internada é aquela que está ‘quebrando tudo’, mas pode ser alguém em estado de apatia profunda, que para de falar ou expressa que não deseja melhorar”, alerta Bianca Reis.
O tratamento hospitalar visa estabilizar sintomas graves e físicos, unindo psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e apoio familiar para que o jovem possa retomar sua rotina.
Sinais de alerta e prevenção
Especialistas orientam que os pais fiquem atentos a mudanças bruscas, como:
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Alterações repentinas no sono ou apetite;
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Isolamento social (especialmente em crianças antes extrovertidas);
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Baixo limiar de frustração e irritabilidade excessiva.
O neurocirurgião André Ceballos, especialista em desenvolvimento infantil, destaca que a prevenção deve começar na primeira infância (até os seis anos). Segundo ele, estabelecer uma comunicação sem julgamentos e uma rotina que equilibre lazer e descanso é um investimento para a vida adulta.
“A culpa não deve paralisar os pais”, conclui Bianca Reis. “Ser pai e mãe é uma tarefa complexa. O essencial é buscar uma rede de apoio e entender a criança como um sujeito que precisa de acolhimento para lidar com seus sentimentos mais profundos.”
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