Vistorias técnicas realizadas no canteiro de obras da montadora BYD, na Região Metropolitana de Salvador, constataram um cenário de precarização que coloca em risco a saúde dos operários. Entre os principais problemas identificados estão banheiros em condições insalubres, transporte inadequado de alimentos, escassez de água potável e falhas na mobilidade interna dos trabalhadores.
As falhas foram detalhadas em um relatório oficial enviado ao Coletivo Ativista na última sexta-feira (22), em resposta a uma queixa formalizada no OuvidorSUS, canal do Ministério da Saúde. O diagnóstico é fruto de duas inspeções conjuntas conduzidas pela Vigilância Sanitária do município e pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) de Camaçari.
Diante do parecer favorável à denúncia, a Vigilância Sanitária emitiu uma notificação exigindo correções imediatas e determinando que todas as prestadoras de serviço terceirizadas que operam no local regularizem seu licenciamento sanitário. Até o momento, a BYD não se pronunciou sobre o caso.
Transporte de alimentos em veículos de passeio e banheiros insalubres
A primeira ação fiscalizatória ocorreu no dia 16 de janeiro, concentrando-se nas instalações da terceirizada Sepeng-7, que conta com cerca de 90 colaboradores voltados a serviços de drenagem, implantação da pista de testes e edificação da chamada Fábrica 18.
No local, os técnicos flagraram refeições vindas de um restaurante em Candeias sendo transportadas sem qualquer refrigeração, acomodadas em porta-malas e bancos traseiros de carros comuns — prática que eleva expressivamente o risco de contaminação bacteriana. O documento ressalta ainda que os fiscais flagraram funcionários consumindo marmitas de procedência desconhecida pelos próprios gestores da BYD, configurando fornecimento clandestino e inviabilizando o controle epidemiológico contra surtos alimentares.
A estrutura de higiene também foi severamente criticada. O relatório aponta que os banheiros químicos eram insuficientes para o contingente de trabalhadores e apresentavam forte mau cheiro e muita sujeira. A higienização desses espaços ocorria apenas três vezes por semana.
Outro agravante citado diz respeito à logística interna: devido à falta de transporte coletivo suficiente dentro do canteiro, os operários realizavam longos deslocamentos a pé, o que comprometia o período destinado ao descanso. A insuficiência de bebedouros na área também gerou desabastecimento de água potável. Tentativas de contato com a Sepeng-7 não obtiveram sucesso devido à ausência de canais válidos de comunicação.

Reincidência de falhas em novas vistorias
No dia 5 de fevereiro, uma segunda inspeção percorreu outras áreas do empreendimento, incluindo os pontos de apoio da Fábrica 4 e a área de atuação da empresa Falcão, focada em serviços de concretagem. Os fiscais constataram a persistência de problemas graves, como:
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Falta de controle térmico no aquecimento das refeições;
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Armazenamento de alimentos em freezers utilizando sacolas plásticas inadequadas;
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Ausência de sabão e insumos básicos para a higienização das mãos;
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Inexistência de vestiários em determinados setores da obra;
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Falta de registros de limpeza nos bebedouros e sanitários químicos.
A empresa Falcão foi procurada por meio de seus canais oficiais, mas não enviou resposta.
Silêncio institucional
O Ministério da Saúde orientou que os questionamentos fossem direcionados à Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab). No entanto, nem o órgão estadual, nem a assessoria de comunicação da Prefeitura de Camaçari responderam aos pedidos de esclarecimento até o fechamento desta edição.
O atual panorama se soma a tensões recentes no complexo industrial. Em dezembro do ano passado, cerca de 2 mil operários terceirizados chegaram a paralisar as atividades nas obras da montadora, reivindicando justamente a melhoria das condições de trabalho e de infraestrutura.
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