Relatórios da CIA diz que regime venezuelano já usava tecnologia para manipular eleições desde 2012
WASHINGTON — Documentos de inteligência da CIA desclassificados por determinação de Donald Trump revelam que o governo da Venezuela possui, há mais de uma década, ferramentas técnicas capazes de adulterar até 1,5 milhão de votos. O material foi utilizado pela Casa Branca para tentar lançar suspeitas sobre o pleito presidencial dos Estados Unidos em 2020, quando o republicano foi superado por Joe Biden. Trump argumentou que os equipamentos de votação em solo americano apresentariam vulnerabilidades parecidas.
Conforme apontam os relatórios, a capacidade de interferir nos resultados por meio de urnas eletrônicas previamente programadas envolve uma ação conjunta de três estruturas do Estado venezuelano: a Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM), o Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN) e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
Histórico de suspeitas e transição do regime
Os registros da agência americana têm como ponto de partida o pleito de 2012, ocasião em que Hugo Chávez — já debilitado por problemas de saúde — derrotou o opositor Henrique Capriles, impulsionado por um montante de aproximadamente R$ 359 bilhões em despesas públicas naquele ano. Contudo, os papéis da inteligência não trazem provas de que o sistema de manipulação tenha sido efetivamente acionado naquela disputa, cujo resultado foi chancelado por Capriles na época.
O panorama ganhou novos contornos após o falecimento de Chávez, em 2013, quando Nicolás Maduro assumiu o poder ao vencer Capriles por uma margem estreita de votos, sob fortes queixas de fraudes. Anos mais tarde, em 2017, a própria Smartmatic — companhia encarregada pela tecnologia das urnas no país — denunciou publicamente uma distorção de pelo menos 1 milhão de votos nos índices de participação divulgados para a eleição da Assembleia Nacional Constituinte.
O relatório da CIA classifica como o evento mais crítico o ocorrido em julho de 2024. Na oportunidade, o aparato chavista teria modificado os dados diretamente para anular a vitória de Edmundo González Urrutia frente a Maduro. Comprovantes obtidos e digitalizados pela oposição via QR Code apontavam um placar real de 7 milhões de votos para González contra 3 milhões do atual mandatário.
Mesmo passado mais de um semestre da derrocada do regime, nenhuma das três instituições mencionadas no relatório da CIA foi reestruturada ou desfeita. Elvis Amoroso, responsável por validar o questionado resultado de 2024 na presidência do CNE, permanece exercendo suas funções.
Desdobramentos nos Estados Unidos e reações políticas
A ofensiva de Trump baseou-se no cenário venezuelano para sustentar a tese de que o sistema de apuração dos EUA poderia ser alvo de ofensivas similares, questionando a integridade do pleito de 2020. No entanto, segundo informações da agência de notícias Reuters, não existem indícios de que tais fraudes tenham ocorrido em território norte-americano, e o próprio ex-presidente não declarou que os métodos da Venezuela foram aplicados nas urnas do país.
As recorrentes contestações de Trump sobre o resultado de 2020, mencionadas por ele em mais de uma centena de ocasiões apenas na primeira metade de 2026, continuam a sofrer forte oposição interna. Em 2020, a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA), órgão vinculado ao Departamento de Segurança Interna dos EUA, já havia classificado aquela votação como “a mais segura da história americana”.
A reação de parlamentares do Partido Democrata intensificou-se após uma operação de busca conduzida pelo FBI no estado da Geórgia. Os senadores Jon Ossoff e Raphael Warnock criticaram duramente a postura do ex-presidente; Ossoff, inclusive, classificou a estratégia jurídica e discursiva de Trump como a “cruzada de um perdedor crônico”.
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