Uefa rompe com a Fifa e anuncia boicote à Copa do Mundo após plano de privatização comercial
Em decisão histórica, a entidade europeia recusa-se a disputar torneios internacionais em protesto contra a tentativa de Gianni Infantino de vender parte dos direitos da Copa a investidores privados.
Nesta quinta-feira (30/07), o cenário do futebol mundial sofreu um abalo sem precedentes. A União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), que representa as federações de 55 países, declarou que suas seleções estão oficialmente fora de qualquer campeonato organizado pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) — incluindo a tão cobiçada Copa do Mundo.
A resolução foi tomada durante uma reunião de emergência por videoconferência. O estopim para o boicote foi o vazamento de um plano idealizado por Gianni Infantino, atual presidente da Fifa, que pretende comercializar uma fatia minoritária dos direitos mercadológicos do Mundial para fundos de investimento privado.
O polêmico projeto “Fifa Forward Enterprise”
Revelada recentemente, a proposta de Infantino visa transformar a estrutura administrativa do esporte. Atualmente, a Fifa atua como uma organização sem fins lucrativos registrada na Suíça, cujos “proprietários” são suas 211 federações associadas.
O plano do mandatário propõe as seguintes mudanças estruturais e financeiras:
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Criação de subsidiária: Fundar a Fifa Forward Enterprise (FFE), uma nova empresa focada apenas nas operações comerciais, avaliada em 20 bilhões de dólares.
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Venda de capital: Repassar pouco mais de 20% dessa nova companhia para a iniciativa privada.
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Injeção de recursos: A operação renderia cerca de 4,2 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 21,4 bilhões) aos cofres da entidade.
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Interessados: Entre os potenciais compradores está a Thrive Eternal, companhia comandada por Joshua Kushner (irmão de Jared Kushner e genro do ex-presidente americano Donald Trump).

Para convencer os países-membros a aprovarem a medida até o meio de setembro, Infantino enviou cartas com promessas financeiras ousadas. O dirigente garantiu que o repasse básico para os próximos quatro anos saltaria de 10 milhões para 20 milhões de dólares. A longo prazo, a projeção é que cada federação receba até 86 milhões de dólares até 2038, um aumento expressivo em relação aos atuais 36 milhões. O cartola defende que essa é a chance de “alavancar” o desenvolvimento do esporte globalmente.
Ultimato europeu e impacto imediato
A Uefa, no entanto, enxergou a manobra como um ato de “coerção” e “intimidação”. Em nota oficial, a liderança europeia repudiou o projeto de forma unânime, destacando que o mundial de seleções não é um ativo financeiro.
“A Copa do Mundo da Fifa pertence ao futebol. Sempre pertenceu. E, enquanto a Europa tiver voz, ela nunca estará à venda”, frisou o comunicado da organização, alertando que mercantilizar o torneio deixará os atletas e o esporte reféns de metas de lucro de investidores.
Os europeus também criticaram a forma sigilosa como a proposta foi desenhada, classificando a atitude de Infantino como irresponsável e uma verdadeira “abdicação” de seu papel como protetor do esporte mundial. O boicote, segundo a Uefa, está mantido até que o projeto de privatização seja definitivamente cancelado e existam garantias legais de que a governança da Fifa não será aberta ao mercado.
A primeira baixa prática desse rompimento acontecerá em breve. A Copa do Mundo Feminina Sub-20, programada para começar em 5 de setembro na Polônia, já não deverá contar com a presença das seleções europeias.
O trono de Infantino sob ameaça
Ironicamente, Gianni Infantino construiu boa parte de sua carreira na própria Uefa, onde atuava como secretário-geral (função semelhante à de um CEO) antes de assumir o comando da Fifa em 2016. Agora, sua jogada financeira de alto risco colocou em xeque sua hegemonia de 11 anos no poder.
Até poucos dias atrás, após o encerramento da última Copa do Mundo masculina, o cenário indicava uma reeleição tranquila. Infantino parecia caminhar sem adversários para o seu quarto e último mandato, que iria até 2031. Rumores nos bastidores apontam, inclusive, que ele planejava assumir o cargo de comissário da nova Fifa Forward Enterprise após deixar a presidência.
No entanto, a insatisfação crescente, que já atinge três das seis confederações continentais, muda o panorama político do futebol. Com a próxima eleição presidencial marcada para março do ano que vem, no Marrocos, os opositores têm até o dia 18 de novembro para registrar novas candidaturas e tentar encerrar a “era Infantino”.
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