
Sistema carcerário virou ‘fábrica’ de facções e perdeu efetividade, aponta Rodrigo Pimentel
Em entrevista ao programa Live CNN, ex-capitão do Bope defende que o fortalecimento das penitenciárias e o investimento na educação integral são peças-chave para conter a criminalidade no país.
SÃO PAULO — A incapacidade das unidades prisionais brasileiras em reprimir o crime e a transformação desses espaços em berço das organizações criminosas foram o centro da análise do ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), Rodrigo Pimentel. Em participação ao vivo no programa Live CNN, o especialista em segurança pública avaliou que o modelo atual de encarceramento falhou em seu objetivo primário.
Segundo Pimentel, os estabelecimentos penais deixaram de representar uma resposta à violência urbana para se converterem na origem direta das estruturas criminosas do país. Das dezenas de facções em atividade no território nacional — estimadas em pelo menos 72 grupos —, a totalidade teve seu surgimento vinculado ao ambiente penitenciário.
“Os presídios deixaram de ser solução no Brasil há muito tempo e passaram a ser um problema”, destacou o ex-oficial durante a sabatina.
Tabu nos debates políticos e a superlotação
O ex-capitão também criticou a omissão do tema nas propostas da classe política, apontando que candidatos costumam esquivar-se de debates sobre a expansão e a modernização da infraestrutura prisional. Para o especialista, a falta de apelo popular da pauta impede a criação de soluções concretas para o déficit de vagas e a superlotação, problemas considerados gargalos para a ordem pública.
Para ilustrar o impacto das políticas carcerárias na criminalidade, Pimentel apresentou um panorama comparativo entre unidades da federação:
Piauí: Ao expandir a capacidade instalada das prisões e abrir novas vagas, a administração estadual conseguiu obter recuos nos índices de homicídios e em assaltos nas vias públicas.
Bahia: Com deficiências no volume de investimentos destinados ao sistema penitenciário ao longo do tempo, o estado enfrentou uma tendência oposta, registrando elevação nas taxas de mortes violentas nos últimos nove anos.
Ainda que reconheça que a segurança pública dependa de múltiplos fatores, o analista ressaltou a correlação direta entre maior rigor no cumprimento da lei e a diminuição de delitos nas ruas.
Educação em tempo integral como barreira ao crime juvenil
Além da contenção nas prisões, Pimentel ressaltou que a prevenção primária — focada em crianças e jovens — passa necessariamente pelo fortalecimento do sistema de ensino.
Ele apontou que estados que adotaram modelos de jornadas escolares estendidas (de sete a nove horas diárias) conseguiram reter os estudantes nas salas de aula e conter a participação de menores em ilícitos.
Como exemplo dessa estratégia, o ex-capitão destacou o caso de Goiás: ao combater a evasão no ensino médio, o estado reduziu expressivamente o número de adolescentes submetidos a medidas socioeducativas com restrição de liberdade, caindo de 1.400 jovens há cerca de uma década para cerca de 120 atualmente — sem dependência direta de uma abordagem estritamente ostensiva ou punitiva.

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