O bolsonarismo foi realmente derrotado?
No dia 12 de julho de 2023, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), José Roberto Barroso, durante um discurso na União Nacional dos Estudantes (UNE), foi vaiado e, em um momento de lapso, declarou: “Nós derrotamos o bolsonarismo”. A frase, considerada comprometedora, ecoou rapidamente pelo Brasil e pelo mundo. Até o fechamento desta análise, o ministro não havia conseguido se explicar de forma satisfatória, apesar de tentativas. Em um país com tradição de rigor institucional, tal declaração poderia custar o cargo de um magistrado, uma vez que expõe um viés político e sugere a existência de uma trama contra o então presidente Jair Bolsonaro, envolvendo pelo menos um ministro do STF. A declaração também deixou no ar uma pergunta: “nós”, quem?
Como tudo começou?
O surgimento do bolsonarismo remonta a 2016, quando Jair Bolsonaro, então deputado federal, começou a ser convidado para participar de programas de televisão. Com formação militar, linguagem direta e polêmica, Bolsonaro rapidamente se tornou um fenômeno de audiência, atraindo olhares para sua figura e discurso. O que muitos não perceberam na época, era que, a cada aparição, ele ressuscitava uma ideia que, em poucos anos, ganharia força suficiente para levá-lo à Presidência da República.
Com o tempo, Bolsonaro passou a viajar pelo país, levando seu objetivo diretamente ao público. O discurso conservador, que abordava temas como combate às drogas, crítica à ideologia de gênero, oposição ao aborto e defesa dos valores da família tradicional, ressoou profundamente em uma parcela significativa da população. Para muitos, suas palavras foram um bálsamo em meio a um cenário político marcado por escândalos e polarização.
Quando seus adversários perceberam a dimensão do fenômeno, já era tarde. Bolsonaro lotava aeroportos, praças e eventos por onde passava, conquistando multidões. Em 2018, ele foi eleito presidente do Brasil com 55% dos votos válidos, um marco na história política do país. Sua vitória foi notável por ter vindo de um partido pequeno, com pouco tempo de exposição na TV e recursos financeiros limitados, especialmente quando comparado aos padrões das campanhas políticas brasileiras.
Por que um país que não gostava de política mudou de opinião?
A ascensão de Bolsonaro não pode ser compreendida sem analisar o contexto social e cultural do Brasil. Em um país onde a política era frequentemente vista como uma disputa de poder distante da realidade do cidadão comum, o discurso conservador de Bolsonaro trouxe à tona questões que mobilizaram a sociedade. Ele conseguiu transformar a política em uma batalha de valores, conectando-se diretamente com as preocupações de muitas famílias brasileiras.
Essa mudança de perspectiva gerou uma divisão social profunda. De um lado, estavam aqueles que apoiavam a defesa de valores tradicionais; do outro, os que viam no bolsonarismo uma ameaça aos “direitos” conquistados nas últimas décadas. Discussões sobre aborto, drogas e ideologia de gênero deixaram de ser temas restritos ao Congresso e passaram a dividir famílias e amigos, refletindo uma polarização que transcendeu a política e adentrou o campo ético e moral.
Mas, afinal, o que é o bolsonarismo?
É crucial entender que o bolsonarismo é uma ideia, e não uma pessoa, como muitos acreditam. Essa ideia, baseada no conservadorismo, encontrou eco em uma parcela significativa da sociedade brasileira, que se identificou com seus princípios e passou a defendê-los com fervor. Bolsonaro, por sua vez, tornou-se o rosto desse movimento, agregando em torno de si lideranças, políticos e cidadãos que compartilhavam dos mesmos ideais.
Hoje, cerca de uma década depois, o bolsonarismo é uma realidade consolidada, com raízes profundas e difíceis de serem removidas. A força do movimento se deve, em grande parte, ao fato de que a maior parte da sociedade brasileira ainda é conservadora. Para muitos, o bolsonarismo representa a possibilidade de serem ouvidos e representados. E, como todo movimento precisa de um líder, Bolsonaro acabou por se tornar uma figura quase heroica no imaginário popular, visto por muitos como o libertador do Brasil.
O bolsonarismo é sustentável?
A resposta é sim. Os números mais recentes mostram que a ideia continua forte. Em 2018, quando Bolsonaro se candidatou à Presidência pelo PSL, o partido tinha apenas um deputado federal. Após as eleições, esse número saltou para 52. Em 2022, já pelo PL, a bancada do partido na Câmara dos Deputados cresceu de 77 para 99 representantes, tornando-se a maior do Congresso. Nas últimas eleições municipais, o bolsonarismo manteve sua influência, elegendo 516 prefeitos, mais que o dobro do PT, que elegeu 252. Além disso, o PL, partido que hoje abriga o bolsonarismo, também conquistou a vice-presidência do Senado. Um crescimento político impressionante, que demonstra a força e a consolidação do movimento.
E quando Bolsonaro morrer, a ideia morrerá com ele?
Não. Quando uma ideia atinge o patamar de consolidação demonstrado nos últimos anos, ela se torna independente de seu líder inicial. No começo, Bolsonaro pode ter sido o principal expoente do movimento, mas, com o tempo, o bolsonarismo se organizou e distribuiu a responsabilidade da proposta de forma mais equilibrada, fortalecendo-a ainda mais. Devo ressaltar que a perseguição política intensificada desde 2023 ao bolsonarismo, está longe de enfraquecer o movimento, antes, pode ter o efeito contrário. Caso Bolsonaro seja preso, seus adversários, sem querer, podem transformá-lo em um mártir da política brasileira, alimentando ainda mais a chama do bolsonarismo.
Enfim, os números continuam a crescer, e a ideia parece estar longe de ser extinta. O bolsonarismo, parece ser mais do que um fenômeno político, é um reflexo de uma sociedade que encontrou, em uma figura controversa, a representação de seus valores e anseios. E, enquanto esses valores continuam a ressoar, o movimento dá sinais que seguirá vivo, independentemente do destino de seu líder.

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