Grandes redes varejistas e supermercados estão adotando uma medida radical para diminuir os altos índices de furto em suas lojas: a divulgação de vídeos mensais nas redes sociais, mostrando os rostos de supostos criminosos em flagrante. A iniciativa, que já apresenta resultados significativos, também levanta questões sobre os limites da exposição pública e os riscos jurídicos envolvidos.
A Havan, rede com 180 lojas no país, foi uma das primeiras a implementar a estratégia, batizada de “Amostradinhos do Mês”. Desde o primeiro semestre de 2024, os vídeos publicados pela empresa alcançam milhões de visualizações, contribuindo para uma redução de 50% nos furtos registrados. Além dos canais oficiais da marca, o material também é compartilhado pelo empresário Luciano Hang, dono da rede, que possui milhões de seguidores.
Outras empresas, como a rede de supermercados Condor, também aderiram à prática, obtendo alcance considerável nas redes sociais. No entanto, estabelecimentos menores que tentaram replicar a abordagem não conseguiram o mesmo impacto.
Estratégia surge após falhas nos métodos tradicionais
A Havan justifica a campanha citando prejuízos mensais de R$ 200 mil com furtos antes da iniciativa. Segundo a empresa, a simples identificação por câmeras e o acionamento da polícia não eram suficientes para inibir os crimes. A exposição pública, portanto, teria como objetivo pressionar autoridades e alertar a sociedade sobre o problema.
Apesar da eficácia na redução dos furtos, a medida já enfrentou questionamentos judiciais, com ações por danos morais movidas por pessoas expostas nos vídeos. Até o momento, porém, a empresa afirma não ter sofrido decisões desfavoráveis.
Caso recente amplia debate
Recentemente, um secretário municipal do Amazonas foi exonerado após aparecer em um dos vídeos da Havan, acusado de trocar embalagens para pagar menos por um produto. Ele se defendeu, alegando um “mal-entendido”, mas o caso reforçou a discussão sobre os efeitos da exposição pública na vida dos envolvidos.
Riscos jurídicos e críticas à “justiça pelas próprias mãos
Especialistas em Direito alertam que, embora a estratégia possa ser eficaz, ela traz riscos para as empresas. A divulgação de imagens sem condenação judicial pode abrir espaço para processos por danos morais, especialmente se houver dúvidas sobre a efetiva consumação do crime.
Alguns juristas argumentam que as redes podem se apoiar no artigo 144 da Constituição, que coloca a segurança pública como responsabilidade compartilhada. No entanto, há divergências sobre até que ponto a exposição pública é legítima.
Para a advogada Ana Paula Canto de Lima, especialista em Direito Digital, a prática se assemelha a um “justiçamento”, podendo ter consequências graves para os acusados e até mesmo para seus familiares. Ela ressalta que, em casos em que não há comprovação do crime consumado, a exposição indevida pode configurar violação de direitos.
Por outro lado, a advogada também observa que muitos dos flagrados podem hesitar em processar as empresas, já que isso os colocaria novamente em evidência e poderia levar a ações criminais.
Enquanto as redes varejistas comemoram a queda nos furtos, a estratégia de expor suspeitos nas redes sociais continua a gerar debates sobre ética, legalidade e os limites entre a autoproteção empresarial e o respeito aos direitos individuais. O tema ainda carece de jurisprudência consolidada, deixando espaço para decisões judiciais divergentes no futuro.
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