Em meio a uma investigação que envolve cifras milionárias e denúncias de desvio de dinheiro público, a Justiça Federal se deparou com um resultado inesperado: apenas R$ 24,8 mil nas contas bancárias da Prospect Consultoria, empresa que ocupa posição central no escândalo de fraudes em descontos indevidos na folha de pagamento de aposentados e pensionistas do INSS.
A Prospect pertence a Antonio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”, apontado como o principal articulador de um esquema que teria movimentado mais de R$ 53 milhões por meio de contratos com associações suspeitas. As autoridades suspeitam que boa parte desses valores tenha sido redirecionada a pessoas ligadas a servidores do Instituto, como forma de propina.
Segundo a Polícia Federal, mais de R$ 9 milhões foram transferidos da empresa para indivíduos próximos a dirigentes do INSS, incluindo o filho de um dos investigados, que sozinho teria recebido R$ 1,3 milhão entre março e agosto de 2023.
Bloqueio ineficaz e sinais de ocultação de patrimônio
A tentativa da Justiça de congelar os bens da Prospect resultou em um saldo quase simbólico. Mesmo após determinação judicial, as contas da empresa revelaram um saldo total de R$ 24,8 mil, valor considerado ínfimo diante da movimentação financeira detectada. O Banco Central rastreou três contas vinculadas à empresa, todas com saldo baixo.
Esse resultado contrasta com o estilo de vida e o patrimônio ostentado por Antunes. Na mesma semana da operação, carros de luxo foram apreendidos pela PF em Brasília, e registros apontam que o patrimônio imobiliário de suas empresas aumentou em R$ 14,3 milhões em poucos meses no ano passado.
Criada em janeiro de 2022, a Prospect Consultoria se apresenta como prestadora de serviços diversos, desde consultoria empresarial até teleatendimento e reprodução de software. Mas a investigação mostra que, na prática, a empresa era peça-chave na engrenagem de um esquema de corrupção.
Associações na mira e respostas evasivas
A Polícia Federal identificou que a Prospect recebeu mais de R$ 31 milhões de seis entidades — Ambec, CBPA, Asabasp, AP Brasil, Cebasp e Unaspub — entre 2022 e 2023. Essas organizações são acusadas de realizar descontos fraudulentos nas aposentadorias de segurados do INSS.
A Ambec e o Cebap, por meio dos mesmos advogados, alegaram que os pagamentos à Prospect referem-se a serviços de “correspondência bancária” e que a captação de associados foi responsabilidade da empresa. A AP Brasil, por sua vez, limitou-se a dizer que seu objetivo é oferecer benefícios compatíveis com o valor das mensalidades cobradas, sem responder diretamente às acusações.
Prejuízo bilionário e recuperação incerta
As dimensões do esquema impressionam: a estimativa é que mais de R$ 6,3 bilhões tenham sido desviados em todo o país entre 2019 e 2024. Ainda assim, investigadores avaliam como remota a chance de recuperar integralmente os valores desviados.
Além da atuação da Polícia Federal, a Advocacia-Geral da União (AGU) também move ações para tentar ressarcir os cofres públicos. O governo busca minimizar os danos, já que precisa compensar as vítimas dos descontos indevidos.
Apesar da operação batizada de “Sem Desconto” ter levado ao afastamento de diversos servidores e à apreensão de bens, o caminho para recuperar o dinheiro desviado ainda é incerto — e, como mostram os R$ 24 mil encontrados nas contas da Prospect, o rastro deixado pelos milhões pode ter sido cuidadosamente apagado.
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