No dia seguinte à sua quarta convocação da seleção brasileira, Carlo Ancelotti se deparou com críticas abertas à presença de treinadores estrangeiros no Brasil. Os comentários foram feitos por Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira durante o 2º Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol (FBTF), realizado na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na terça-feira.
Ambos os treinadores, sem se inibirem pela presença de Ancelotti no evento, atacaram o fato de profissionais de outros países estarem atuando no futebol nacional.
“Sempre afirmei minha aversão a técnicos estrangeiros em meu país e mantenho essa posição”, declarou Leão. Ele ponderou, no entanto, que “anteriormente, eu dizia que não toleraria [estrangeiros]. Contudo, preciso ter a perspicácia de reconhecer que a culpa dessa invasão de outros treinadores que não têm relação com isso recai sobre nós, os próprios técnicos brasileiros.”
Emerson Leão, de 76 anos, é reconhecido como um dos melhores goleiros da história do Brasil, com forte identificação com o Palmeiras, clube pelo qual jogou 621 partidas. Pela seleção, participou das Copas do Mundo de 1970, 1974, 1978 e 1986. Como técnico da seleção, teve um período breve, de outubro de 2000 a junho de 2001, sendo substituído por Luiz Felipe Scolari, campeão do pentacampeonato em 2002. O ex-goleiro está afastado do comando de equipes profissionais desde 2012, quando treinou o São Caetano, tendo atuado brevemente como consultor da Portuguesa em 2017.
Oswaldo de Oliveira, com um tom mais entusiasta, manifestou o desejo de que a seleção volte a ser dirigida por um brasileiro. “Tomara que cheguemos a ver os técnicos brasileiros brilhando, à frente dos clubes. Evidente, Ancelotti, depois de ser campeão, oxalá um brasileiro retome o comando”, disse, provocando um leve sorriso no técnico italiano.
Oswaldo, de 74 anos, não comanda um clube desde 2019. Seu auge ocorreu no início dos anos 2000, quando foi considerado um potencial candidato à seleção após campanhas de sucesso no Corinthians (com conquistas do Estadual, Brasileirão e Mundial de Clubes) e no São Paulo. Construiu uma longa carreira no futebol japonês, onde levantou taças com o Kashima Antlers entre 2007 e 2011.
Repercussão e Contexto da Polêmica
Diretor de Federação Contesta Fala de Oswaldo
Após o evento, Alfredo Sampaio, diretor da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol, criticou a postura de Oswaldo de Oliveira, lamentando o possível impacto negativo nas tentativas dos treinadores brasileiros de se aproximarem da CBF.
“Expresso aqui meu repúdio pela atitude que ele [Oswaldo de Oliveira] teve neste local. Foi inadequada para um evento tão relevante. Os técnicos brasileiros estavam buscando uma aproximação com a instituição esportiva mais importante do país [CBF], que está promovendo mudanças no futebol brasileiro. Portanto, queríamos fazer parte dessa transformação. E, hoje, confesso que não sei se conseguiremos concretizar tudo o que planejamos devido à ação de uma pessoa que não teve a serenidade para compreender o local onde estava e o que não deveria ser dito”, afirmou Sampaio.
Participantes do Fórum na CBF
O FBTF se dedica a debater o futebol brasileiro sob a ótica dos técnicos. Além de Ancelotti, Leão e Oswaldo de Oliveira, o evento contou com a presença de:
- Vagner Mancini (técnico do Red Bull Bragantino e presidente do FBTF)
- Rodrigo Caetano (coordenador executivo geral de seleções masculinas da CBF)
- Arthur Elias (técnico da seleção feminina)
- Geninho (campeão brasileiro de 2001 pelo Athletico-PR e paulista de 2003 pelo Corinthians)
- Fernando Diniz (do Fluminense)
- Ney Franco (campeão sul-americano pelo São Paulo em 2012)
- Outros nomes do futebol brasileiro.
A Resposta de Ancelotti
No início do evento, Carlo Ancelotti ofereceu sua própria reflexão sobre o tema. “A força do treinador brasileiro, preciso ser honesto, não é tão grande. Algo que ouvi e não compreendo é por que o técnico brasileiro não pode trabalhar na Europa. Isso indica que a figura [do treinador] é um tanto fraca. É fundamental trabalharmos em conjunto para que a nova geração seja forte”, ponderou o italiano.
Origem do Debate sobre Técnicos de Fora
A discussão sobre a presença de técnicos estrangeiros ganhou força entre 2015 e 2016, com o surgimento de um debate sobre a necessidade de renovação da classe, com a substituição dos “medalhões”. À época, discutia-se a idade e se os treinadores tradicionais estavam “defasados”. Uma série de nomes, como Roger Machado, Fábio Carille, Jair Ventura, Zé Ricardo, Eduardo Baptista, Milton Mendes, Marquinhos Santos, Jorginho e Doriva, surgiram como promessas, mas não alcançaram conquistas significativas que garantissem sua permanência no topo.
Com o sucesso de Flamengo e Palmeiras entre 2019 e 2021, sob o comando dos portugueses Jorge Jesus e Abel Ferreira, respectivamente, no Campeonato Brasileiro e na Libertadores, o cenário mudou. Profissionais estrangeiros ganharam destaque no país. Clubes da Série A passaram a buscar, em especial, técnicos de Portugal e Argentina, o que levou a uma redução do espaço dos treinadores brasileiros.
Na seleção, a saída de Tite abriu uma lacuna. Ramon Menezes e Fernando Diniz assumiram provisoriamente, na expectativa de que Ancelotti fosse contratado no começo de 2024. O italiano, no entanto, permaneceu no Real Madrid. A CBF, então, anunciou Dorival Júnior, que foi demitido devido a resultados insatisfatórios. Por fim, Ancelotti foi contratado, sob a crença de que apenas um estrangeiro poderia fornecer o que faltava à equipe. Em seis partidas no comando do Brasil, Ancelotti acumula até o momento três vitórias, um empate e duas derrotas.
Sem comentários! Seja o primeiro.