Barroso passa vergonha em dose dupla
Após uma resposta desastrosa publicada no Estadão tentando minimizar os notórios supersalários do Judiciário brasileiro, o ministro Luís Roberto Barroso voltou à carga. Desta vez, resolveu responder a uma reportagem da revista The Economist que criticava a concentração de poder nas mãos de Alexandre de Moraes. Com mais essa investida, Barroso parece estar colecionando desmentidos públicos — mais uma e talvez garanta espaço no “Fantástico”.
A nota divulgada (https://tinyurl.com/2nwy8w8n) segue o mesmo roteiro do artigo anterior: argumentos frágeis, erros factuais e malabarismos retóricos. Localizei sete problemas centrais no texto, que listo a seguir conforme sua ordem de aparição:
- Logo no início, menciona um suposto “colapso institucional” em diversos países do Leste Europeu e da América Latina. Mas não cita nenhum nome. Fica no ar: estaria se referindo a países governados por grupos rotulados de “extrema-direita”? Ou seria apenas uma cortina de fumaça? Um pouco mais de clareza cairia bem.
- Em defesa da imagem do STF, Barroso apela a uma pesquisa do Datafolha e interpreta os dados de forma criativa. Ele junta os percentuais de “confia muito” (24%) e “confia um pouco” (35%) para dizer que a maioria da população confia na Corte. Só que os números mais recentes apontam 21% no primeiro item, e além disso, somar “confia um pouco” com “confia muito” como se fossem sinônimos é estatisticamente desonesto. A medida mais precisa seria a “confiabilidade líquida” — diferença entre os que confiam e os que não confiam. Nesse caso, o saldo do STF é negativo: -17%. Para comparação, os militares têm +10%, e o Congresso amarga -31%.
- Afirma-se que decisões monocráticas foram depois confirmadas pelos demais ministros. Só que há casos emblemáticos, como a anulação de delações e provas da Lava Jato por Toffoli, que ainda aguardam essa tal confirmação coletiva. Seguimos esperando.
- Barroso rebate críticas sobre o caso envolvendo a plataforma X (ex-Twitter) dizendo que a suspensão se deu por ausência de representação legal no Brasil. Mas o ponto levantado pela Economist é outro: a remoção de inúmeros perfis favoráveis a Bolsonaro. O ministro finge que derrubar perfis e remover conteúdo são a mesma coisa — o que não são. Além disso, não menciona o fato de que o representante legal da empresa estava sob ameaça de prisão nem comenta o bloqueio de contas ligadas à Starlink, medidas que soam autoritárias.
- A frase “nunca dissemos que derrotamos Bolsonaro, foram os eleitores” é um exemplo clássico de distorção retórica. Quem quiser ilustrar uma aula sobre falácias argumentativas pode usar essa frase sem medo de errar. A sutileza não esconde a manipulação.
- O ministro tenta justificar o julgamento de Bolsonaro por um colegiado específico dizendo que “essa é a regra”. Esquece de dizer que se trata de regra interna do tribunal, passível de alteração, como já aconteceu com o foro privilegiado. O maior problema, porém, é que a revista britânica não questiona o número de juízes, mas sim a imparcialidade deles — tema ignorado na resposta oficial.
- Por fim, o texto da Economist aponta que três dos cinco ministros que julgarão Bolsonaro têm laços diretos com o caso: um foi seu ministro da Justiça, outro, seu advogado; e Moraes é citado como parte envolvida, pois foi supostamente alvo de ameaças. Barroso responde como se fossem apenas ataques genéricos de Bolsonaro aos juízes, sem abordar os possíveis conflitos de interesse, que deveriam ser tratados com seriedade, independentemente de quem seja o acusado.
No geral, a nota de Barroso trata o público como se fosse incapaz de questionar ou refletir, assumindo ares de iluminado que veio ensinar a sociedade a funcionar. Mas o trecho final é o mais preocupante: ele afirma categoricamente que os réus “tentaram um golpe de Estado”, antes mesmo do julgamento acontecer. Isso transforma o processo em encenação, bancada com dinheiro público.
Se quiser, posso adaptar o texto com um tom mais formal, mais irônico, ou mais direto. Quer experimentar outro estilo?
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