Decisão judicial revela tortura, execução e domínio armado do CV na Penha
Texto Reescrito com Informações Mantidas
Uma decisão proferida pela 42ª Vara Criminal do Rio de Janeiro revelou o modo de operação rigoroso e a estrutura do Comando Vermelho (CV) no Complexo da Penha. O conteúdo desse documento judicial serviu como fundamento para a Operação Contenção, desencadeada conjuntamente pela Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual na terça-feira, 28.
O juiz Leonardo Picanço expediu mandados de prisão preventiva para 51 membros da facção. Adicionalmente, 17 outros indivíduos seriam responsabilizados por meio de medidas cautelares alternativas. A lista de acusados inclui Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, apontado como o principal líder do CV em solo carioca.
Entre os integrantes de destaque figuram também Pedro Paulo Guedes (Pedro Bala), Carlos da Costa Neves (Gardenal), Washington César Braga da Silva (Grandão ou Síndico da Penha) e Juan Breno Malta Ramos Rodrigues (BMW).
Conforme o teor da decisão, o grupo criminoso atuava com uma estrita hierarquia de funções. Doca emitia diretrizes sobre a comercialização de entorpecentes, o uso de armamento de guerra e o controle financeiro da organização. Seus três principais auxiliares coordenavam as ações operacionais e a expansão territorial violenta.
Pedro Bala, Gardenal e Grandão compunham o escalão estratégico. Gardenal era responsável por planejar a invasão de áreas controladas por milícias. Grandão gerenciava os turnos de trabalho e a remuneração dos integrantes. O documento também aponta para um contato direto dele com um policial militar, que supostamente solicitou auxílio da facção para recuperar um veículo roubado.
BMW Liderava Esquadrão de Punição
Por sua vez, BMW chefiava o denominado Grupo Sombra — um braço armado encarregado de tortura, castigos e execuções. Ele treinava novos integrantes com fuzis e armas pesadas e promovia sessões de espancamento contra moradores acusados de descumprimento de regras.
O magistrado registrou que: “Os elementos probatórios fornecem indícios suficientes de autoria e comprovação da materialidade dos crimes de tortura e associação para o tráfico de drogas, cometidos com o uso de arma de fogo e envolvendo adolescentes.”
Gravações de chamadas, vídeos e mensagens interceptadas trouxeram à luz o dia a dia da facção. Em uma das gravações, os investigadores identificaram Aldenir Martins do Monte Júnior sendo “arrastado por um veículo, amordaçado e algemado, por alguns minutos, sob a suposição de confessar ter delatado a um grupo rival”. Outro vídeo flagra Fagner Campos Marinho, o Bafo, indagando a uma vítima ensanguentada: “Quer morrer logo?”. De acordo com Picanço, o homem parecia “aceitar a morte como forma de cessar o sofrimento”.
Plano de Expansão e Balanço da Operação
As investigações tiveram início em janeiro, a partir de uma denúncia anônima. A Polícia Civil levantou que a cúpula da facção havia se reunido na Penha para traçar planos de expansão da quadrilha para áreas dominadas por milicianos. O inquérito reuniu evidências de que o grupo atuava em, no mínimo, 12 comunidades da zona norte do Rio. Os chamados “soldados do tráfico” — pelo menos 48 identificados — garantiam a proteção dos pontos de venda. Uma mulher, mencionada na decisão, atuava como vigia, monitorando a região.
O juiz ressaltou o extenso histórico criminal de parte dos investigados, incluindo passagens e condenações definitivas. Mesmo os réus sem antecedentes foram encontrados em posse de fuzis, rádios, dinheiro e narcóticos. O magistrado concluiu que liberar os acusados representaria um risco à ordem pública. “É ingênuo crer que uma vida criminosa, como a dos acusados, cessará magicamente”, ponderou o juiz. “A realidade não corrobora isso.”
Nesta quarta-feira, 29, o delegado Felipe Curi, secretário de Polícia Civil do Rio, divulgou o resultado final da grande operação nos complexos do Alemão e da Penha, que culminou em 119 óbitos. Desse total, 115 eram membros do CV e quatro eram policiais. As forças estaduais empregaram mais de 2,5 mil agentes. Foram cumpridos 180 mandados de busca e apreensão e cerca de 70 mandados de prisão, além de 30 pedidos oriundos da Polícia Civil do Pará.
As ações resultaram em 113 detenções. Dentre os presos, 33 vieram de outros estados e dez eram adolescentes infratores. Os agentes também apreenderam 118 armas, 14 explosivos, milhares de munições e centenas de carregadores, além de toneladas de entorpecentes, ainda em fase de contagem.
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