Em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia 15 de junho, os líderes das quatro maiores montadoras do país – Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis – manifestaram preocupação com os efeitos de uma medida em estudo pelo governo federal que pode favorecer a produção de veículos com peças totalmente importadas. O projeto, articulado pela Casa Civil sob comando do ministro Rui Costa, beneficiaria principalmente fabricantes chinesas, como a BYD, que operam no regime Semi Knocked Down (SKD), modelo que reduz a contratação de mão de obra e fornecedores locais.
Segundo o documento, a mudança pode inviabilizar R$ 60 bilhões dos R$ 180 bilhões em investimentos já anunciados pelo setor para os próximos cinco anos – sendo R$ 130 bilhões destinados à produção de veículos e R$ 50 bilhões à cadeia de autopeças. Além do prejuízo financeiro, as empresas projetam a eliminação de 10 mil vagas diretas e o risco de demissão para 5 mil funcionários atuais. O impacto indireto, no entanto, seria ainda mais grave: para cada posto de trabalho cortado nas montadoras, até dez empregos podem desaparecer na rede de fornecedores, totalizando 50 mil demissões em toda a cadeia produtiva. Leia a carta na íntegra
Efeito dominó na indústria
A carta adverte que a medida pode desencadear um “efeito cascata”, reduzindo a demanda por componentes nacionais e desequilibrando o mercado de trabalho. “Privilégios a veículos desmontados ou subsidiados no exterior ferem a política industrial brasileira”, destacam os executivos, que defendem a manutenção de incentivos à produção local. Até agora, o Planalto não se pronunciou sobre o apelo, encaminhado também ao vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro da Indústria e Comércio.
O silêncio do governo ocorre em meio a movimentações no Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), que realizará uma reunião extraordinária na quarta-feira (30) para avaliar pedidos da BYD. A empresa busca reduzir de 18% para 5% a alíquota de importação de kits SKD para carros elétricos e de 20% para 10% nos híbridos.
Cenário de incertezas
A possível adoção do modelo SKD reacende o debate sobre os rumos da indústria automotiva no país. Críticos apontam que a flexibilização favoreceria a BYD, que concentra investimentos na Bahia – estado com histórico político do ministro Rui Costa. Enquanto o governo sinaliza com estímulos à eletromobilidade, as montadoras tradicionais pressionam por regras que preservem a competitividade da produção nacional. A decisão final, agora nas mãos do Gecex-Camex, pode redefinir o futuro do setor e do emprego no Brasil.
(Com informações de O Estado de S. Paulo)
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