Em 2022 era socorro, hoje é interferência: A lógica do TSE

Por Gilaelson
Meus amigos, Brasília nunca decepciona quando o assunto é ginástica semântica.
A última cena dessa nossa novela tragicômica envolve Washington, o TSE e o sagrado — para não dizer intocável — sistema eleitoral brasileiro. A ideia era simples: os Estados Unidos queriam mandar dois emissários para cá. O objetivo? Conversar com o tribunal, ouvir os críticos, entender o funcionamento das urnas e, claro, produzir aquele bom e velho relatório burocrático para o Departamento de Estado.
Mas a porta bateu na cara dos diplomatas. O motivo oficial? “Risco de interferência nas eleições brasileiras”.
E quem operou a tranca dessa porta, você me pergunta? A juíza Renata Gil, titular da Diretoria de Assuntos Internacionais da Corte. Uma profissional requisitada que, por uma dessas coincidências poéticas que só a nossa capital federal proporciona, é namorada do ministro Dias Toffoli. Tudo em casa. Uma verdadeira ação em família em defesa da soberania, não é mesmo?
Mas… — e aqui a gente precisa puxar o arquivo de memória — façamos uma pausa dramática para a hipocrisia.
Não faz muito tempo, em 2022, o então ministro Luís Roberto Barroso declarou, com todas as letras e microfones, que pediu apoio aos americanos para garantir a estabilidade do processo eleitoral contra um suposto risco de golpe. Vamos ver se eu entendi a matemática da nossa corte: quando um ministro chama o Tio Sam para intervir no nosso tabuleiro político, isso é “defesa da democracia”. Agora, quando dois diplomatas querem apenas entender como funciona a engrenagem, isso vira “interferência na democracia”. É uma flexibilidade de conceitos que daria inveja a qualquer contorcionista de circo.
O que realmente fascina nesse episódio é a cobrança por uma fé cega, quase religiosa. O Pentágono já foi invadido. O sistema financeiro global SWIFT já sofreu ataques. Gigantes da tecnologia e até a NASA lidam com vulnerabilidades diárias. Mas a urna brasileira? Ah, não… Ela é o Santo Graal da criptografia moderna. O único sistema digital do planeta Terra que não corre risco de ser fraudado, invadido ou questionado. O mundo que se curve à nossa perfeição e nem pense em olhar pelo buraco da fechadura.
Agora, sejamos pragmáticos: alguém aí realmente acredita que o governo americano rasgou o bloco de notas e desistiu porque um carimbo foi negado no passaporte? Em plena era digital, proibir a entrada física de observadores para tentar esconder informação é como tentar parar o vento com uma cerca de arame farpado. Se não tem reunião no café, tem conferência criptografada no Zoom. A verificação acontece, quer o tribunal queira, quer não.
No fim das contas, a nossa corte eleitoral adota uma estratégia digna de manual: exigem do mundo uma confiança inabalável, mas tratam qualquer dúvida como crime contra a pátria; e o detalhe que eles esquecem é que, na política internacional, quanto mais cadeados você coloca para esconder uma caixinha, mais o mundo tem certeza de que o que tem lá dentro não aguenta dez minutos de luz do sol.
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