
Após recusa, Nepal solicita assistência técnica internacional para enfrentar rastro de destruição
Desastre provocado pelo colapso de geleira deixa centenas de mortos, milhares de desaparecidos e prejuízos estimados em até US$ 5 bilhões no Himalaia.
KATMANDU — Reavaliando sua postura inicial, o governo do Nepal confirmou a necessidade de suporte técnico vindo do exterior para conter os desdobramentos da tragédia socioambiental que assolou a região de fronteira com o território chinês. O recuo ocorre após a nação ter rejeitado auxílio direto em buscas e salvamentos, sob a justificativa de que mantinha a gestão própria do desastre.
O cenário no país asiático de 30 milhões de habitantes é crítico. De acordo com projeções preliminares apresentadas pelo Ministério das Finanças, a reconstrução das áreas devastadas exigirá investimentos entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões (aproximadamente R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões). As perdas totais ainda estão em fase de mensuração.
A catástrofe teve início na última quarta-feira (26), deflagrada pela ruptura de uma estrutura glaciar. A força do impacto gerou uma torrente massiva composta por lama, rochas, gelo e escombros que desceu velozmente pelos cursos d’água da região montanhosa. O avanço da enxurrada pulverizou edificações, infraestrutura rodoviária, pontes e usinas hidrelétricas.
Desaparecidos e crise sanitária
O balanço operacional aponta cerca de 3.000 pessoas não localizadas, grupo no qual se incluem ao menos 540 estrangeiros — em sua maioria, peregrinos indianos de confissão hindu.
Diante do tempo decorrido desde o evento e do avançado estágio de decomposição de vítimas resgatadas, as autoridades sanitárias definiram diretrizes específicas para sepultamento rápido após formalidades jurídicas, visando conter riscos biológicos e eventuais surtos epidemiológicos.
No distrito de Chitwan, a administração local informou que fará a coleta de material genético para exames de DNA antes de enterrar os corpos não identificados em áreas abertas. Paralelamente, parentes de vítimas concentram-se no Campus Médico de Maharajgunj, na capital Katmandu, buscando reconhecer familiares por fotos expostas na entrada do complexo hospitalar. Até o momento, apenas sete de 49 corpos levados ao local foram checados e identificados.
Monitoramento de lagos e apoio estrangeiro
No campo operacional, as equipes precisaram suspender temporariamente os resgates devido ao transbordamento de um reservatório natural formado na divisa sino-nepalesa rumo aos rios Lhende Khola e Trishuli. A situação apresentou alívio neste sábado, quando autoridades da China reportaram redução do volume hídrico e escoamento gradual, conforme checado por imagens de satélite. O monitoramento permanece em dois lagos situados acima da zona atingida até o esgotamento total da água.
O chanceler nepalês, Shisir Khanal, esclareceu que os requerimentos à comunidade internacional concentram-se em especialidades complexas: operações de resgate em estruturas subterrâneas e túneis, restabelecimento de conexões viárias e de comunicação, manejo e conservação de cadáveres por períodos prolongados, além do processamento de exames de DNA.
Em resposta, a Índia enviou aeronaves contendo cerca de 60 toneladas de itens essenciais — como medicamentos, cobertores, mantimentos e insumos para potabilização de água —, além de mobilizar contingentes especializados em engenharia de acesso e suporte médico. Pequim solicitou mobilização conjunta global para o resgate e reforçou as buscas na região fronteiriça de Gyirong, onde equipes acessaram pontos isolados com o uso de cordas após a destruição completa das rotas terrestres.

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