Opinião: o contorcionismo bancário e a lei que não dorme em serviço

Os grandes magnatas do sistema financeiro brasileiro parecem ter inventado uma nova modalidade olímpica para seus cursos de compliance: o contorcionismo jurídico-financeiro. O atleta principal da vez? Ninguém menos que o Banco do Brasil, tentando dar um “jeitinho” que, na prática, é um “jeitão” rumo a uma enrascada de proporções globais.
O enredo lembra um thriller político. O ministro Alexandre de Moraes, após entrar na lista de sanções da Lei Magnitsky pelos Estados Unidos no mês passado, descobriu que ser persona non grata no sistema financeiro internacional é um pouco mais complicado do que ser bloqueado no X. Cartões são cancelados, contas congeladas, e o domínio do dólar mostra suas garras.
A Mastercard, obediente à lei americana e sem disposição para encrenca, tratou logo de cancelar o cartão do ministro. E foi assim que, de repente, o plástico sumiu. Mas aí entrou em cena a criatividade tupiniquim: o Banco do Brasil, num gesto que mistura lealdade corporativa com uma cegueira geopolítica notável, resolveu emitir um cartão novinho para o ministro. Só que não era mais Mastercard. Era ELO. A bandeira nacional, criada por BB, Bradesco e Caixa. Um ato de soberania? Ou quase um golpe de Estado no sistema de pagamentos global?
A ironia é irresistível. Ou os magnatas brasileiros realmente acreditam que a Lei Magnitsky respeita fronteiras e que um cartão “made in Brazil” está blindado contra sanções globais, ou decidiram cutucar o urso americano com vara curta. Qualquer das opções é risível. Desafiar Washington? Em tempos de Trump, tanto faz o figurino: o desfecho é previsível como um roteiro de Hollywood. Enquanto Moraes aposta em soluções caseiras, o STF acredita que leis americanas não se aplicam no Brasil. Mas o dinheiro, esse sim, não tem pátria — e obedece sem pestanejar ao dólar.
A manobra é tão engenhosa quanto tentar esconder um elefante atrás de um poste. Trocar a bandeira do cartão é como trocar a capa de um livro: o conteúdo continua sendo o mesmo. E imaginar que o Departamento do Tesouro dos EUA não perceberia é subestimar uma máquina onipresente, equipada com algoritmos cirúrgicos e paciência próxima de zero.
O recado de Washington já foi dado, claro e direto: quem aparecer no caminho para ajudar Moraes será atropelado. Não se trata de ameaça cinematográfica, mas de promessa burocrática. Eles não mandam tanques; acionam swifts. Não congelam plasticos; congelam ativos. É uma guerra em que o Brasil, infelizmente, não tem sequer um estilingue.
A tentativa de salvar o ministro com um cartão ELO não é ato de bravura — é um bypass ilegal que, quando descoberto (e já foi), pode entupir todo o sistema. O risco não recai apenas sobre Moraes, mas sobre todo o conglomerado da ELO e seus milhões de correntistas, que de repente podem se ver na mira do urso.
No fim, a moral é simples: trocar a bandeira do navio não adianta quando o iceberg tem o tamanho de um continente chamado Estados Unidos da América. A não ser, é claro, que o verdadeiro plano seja afundar cantando o hino nacional.
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