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O Fenômeno Havan: Como a Aposta na Contramão do Mercado Criou um Império Físico no Varejo

Vemvê Brasil
junho 3, 2026
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Prestes a completar quatro décadas, a rede catarinense desmistificou o fim das lojas físicas ao investir em espaços monumentais, símbolos icônicos e uma forte presença no interior do Brasil.

Em meados de 1986, o cenário era modesto: apenas 45 metros quadrados, um balcão solitário, algumas prateleiras de tecidos e um único funcionário na cidade de Brusque, em Santa Catarina. Hoje, quase 40 anos depois, a Havan ostenta imensas réplicas da Estátua da Liberdade, fachadas imponentes e se consolidou como uma das marcas mais inconfundíveis do comércio nacional. O grande segredo para esse crescimento? Ir exatamente contra o que ditavam as tendências do mercado.

Enquanto analistas do setor decretavam o declínio das megastores — influenciados pela queda de gigantes históricas como Mappin, Mesbla e Arapuã na esteira da abertura econômica —, a varejista catarinense optou por acelerar no formato físico. A estratégia focou em estruturas gigantescas, estacionamentos amplos, diversidade de produtos e uma interiorização agressiva, transformando o ato de comprar em um verdadeiro evento de lazer.

Raio-X da Operação Atual:

  • Tamanho: Mais de 190 megalojas distribuídas pelo Brasil.

  • Portfólio: Extenso mix que abrange utilidades domésticas, eletroeletrônicos, moda, brinquedos e decoração.

  • Ecossistema: Forte integração com e-commerce e oferta de cartão de crédito próprio.

Do Chão de Fábrica ao Domínio do Balcão

A história do império varejista está intimamente ligada ao polo têxtil do Vale do Itajaí. Filho de operários da tradicional Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, Luciano Hang vivenciou o cotidiano industrial de perto, passando pelos setores de produção, vendas e expedição. Após uma breve experiência como sócio em uma pequena fiação, Hang teve uma percepção que mudaria sua rota: seu verdadeiro talento era o varejo, e não a manufatura.

A virada oficial ocorreu em 1986. Ao lado do parceiro de negócios Vanderlei de Limas, inaugurou a loja que fundiu as sílabas iniciais de seus nomes: Hang e Vanderlei formaram a “Havan”. Após meia década, a parceria foi dissolvida, e Luciano assumiu o controle total e exclusivo da companhia.

Arquitetura Monumental e a Construção de um Personagem

Não é possível falar da rede sem citar sua identidade visual controversa e marcante. A introdução da Estátua da Liberdade em Brusque e, posteriormente, a adoção de fachadas espelhadas inspiradas na Casa Branca criaram um marco visual instantâneo. Antes mesmo de cruzar as portas, o consumidor já reconhece a marca.

A comunicação também sofreu uma reviravolta protagonizada pelo próprio fundador. Até 2016, Hang atuava nos bastidores e o grande público desconhecia a liderança por trás das lojas. Contudo, após especulações virais nas redes sociais sobre a propriedade da rede, a empresa lançou a provocativa campanha: “Quem é o dono da Havan?”.

O resultado foi imediato: o empresário estampou seu rosto nas lojas, abraçou o apelido “Véio da Havan” — inicialmente usado de forma pejorativa — e o transformou em um poderoso ativo de marketing popular.

O Futuro Físico em um Mundo Digital

A década de 2010 marcou a escalada fulminante da marca para fora do eixo das metrópoles tradicionais. Um retrato fiel dessa estratégia de interiorização ocorreu em 2017, no Acre: a inauguração da 100ª filial em Rio Branco atraiu cerca de 150 mil visitantes. A varejista provou que, em centros regionais, uma nova loja desse porte funciona como um símbolo de desenvolvimento e ponto de encontro urbano.

Atravessando o período de 1986 a 2026 — sobrevivendo a hiperinflações, crises políticas, planos econômicos e uma pandemia —, a Havan manteve sua gestão familiar e centralizada, recusando-se a abrir capital na bolsa de valores. Isso garantiu agilidade estratégica, mesmo que às custas da transparência de dados públicos.

Com a marca dos 40 anos se aproximando, a Havan deixa uma reflexão importante para o setor. Em uma era dominada por marketplaces e aplicativos, a rede prova que a loja física não precisa ser apenas um ponto de retirada expresso, mas pode continuar sendo um destino de convivência, espetáculo e conexão direta com o consumidor.

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