Professor da USP Jorge Kalil, aparece em diário do Dr. Fauci pedindo ajuda contra Bolsonaro, “Bolsonaro é terrível”
Registros da principal autoridade de saúde dos EUA em 2021 mostram que Jorge Kalil solicitou apoio norte-americano diante da condução da crise sanitária pelo governo Jair Bolsonaro
Registros pessoais do médico Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos e figura central na resposta norte-americana à Covid-19, indicam que o cientista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Jorge Kalil, pediu a intervenção do órgão para auxiliar o Brasil durante o auge da crise sanitária. Nas anotações, Kalil teria criticado a atuação do então presidente Jair Bolsonaro, classificando sua gestão como “terrível”.
A interação ocorreu em 30 de março de 2021, período em que o Brasil havia acabado de ultrapassar a marca das 300 mil mortes causadas pelo coronavírus. Naquela mesma data, Fauci havia participado de uma reunião virtual com Marcelo Queiroga, recém-nomeado para o comando do Ministério da Saúde.
De acordo com as anotações do imunologista norte-americano, as autoridades brasileiras buscavam cooperação com os EUA devido à gravidade do cenário no país. Em seu diário, Fauci registrou que o comportamento de Bolsonaro assemelhava-se ao do ex-presidente Donald Trump, o que, em sua avaliação, prejudicava o combate ao vírus. Como resposta imediata, a autoridade sanitária dos EUA propôs parcerias no campo da pesquisa científica e no alinhamento de diretrizes estratégicas.
Logo após a conferência oficial, Kalil enviou uma mensagem direta a Fauci reforçando o pedido de assistência. O cientista brasileiro expressou que a comunidade acadêmica e a sociedade do país precisavam do amparo do especialista e da influência internacional do órgão norte-americano.
Doses de vacinas e gargalos no fornecimento
Os trechos do diário indicam também que o governo brasileiro tentou obter o envio emergencial de imunizantes sob posse do governo dos EUA. Fauci esclareceu que as diretrizes do país norte-americano priorizavam a imunização total de sua própria população antes de destinar eventuais sobras a outras nações. A previsão apresentada na ocasião era de que remessas expressivas dos farmacêuticos da Pfizer, AstraZeneca e Johnson & Johnson chegariam ao mercado brasileiro entre o final de maio e o início de junho daquele ano.
Depoimento no Senado norte-americano
A divulgação do conteúdo do diário ocorreu na última quarta-feira (29), durante uma sessão no Senado dos EUA liderada pelo senador republicano Rand Paul. Na audiência, Fauci fez uso do direito garantido pela Quinta Emenda da Constituição norte-americana — que assegura o silêncio para evitar a autoincriminação — e optou por não responder aos questionamentos dos parlamentares. O ex-diretor é alvo de críticas e acusações da ala republicana sobre a condução de medidas restritivas e o repasse de informações a respeito do surgimento do vírus.
Jorge Kalil é professor titular de Imunologia Clínica e Alergia na Faculdade de Medicina da USP, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor) e ex-presidente do Instituto Butantan. À época dos fatos registrados, o médico integrava um comitê consultivo internacional criado pelo governo dos EUA para supervisionar os ensaios clínicos das vacinas contra a Covid-19.
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