
Opinião: O Supremo “sangra” em plena Praça dos Três Poderes

Quem diria que a Praça dos Três Poderes, projetada para ser o panteão da estabilidade republicana, se transformaria no palco de uma autópsia institucional de péssimo gosto? Hoje, a nossa mais alta corte não veste apenas a toga de seda; veste a camisola de hospital. O Supremo Tribunal Federal, senhoras e senhores, sangra em praça pública — e o boletim da opinião pública aponta para uma falência múltipla de credibilidade.
A profundidade dessa fratura exposta não se mede mais em hermenêutica ou laudas jurídicas, mas em cifras. E cifras astronômicas.
Contemplem a ironia: o tribunal que exige transparência absoluta do país agora assiste ao seu magistrado mais implacável enredado em uma teia, no mínimo, embaraçosa. Quando surgem indícios de que a mesma caneta que dita os rumos da República supostamente editou um contrato que fez desaguar 131 milhões de reais na banca advocatícia da própria esposa, o alarme institucional deixa de ser um ruído de fundo e vira um estrondo. Adicione a esse enredo a sombra de um ex-banqueiro sob forte suspeita no Caso Master, e a conclusão transmuta-se em platitude: a fronteira entre a conveniência privada e o múnus público nunca foi tão elástica. Nem tão lucrativa.
Do outro lado do plenário, a coreografia não é menos exótica. Assistimos à curiosa metamorfose de ministros que parecem ter esquecido de devolver o crachá do Executivo antes de tomar assento na cadeira mais alta do Judiciário, atuando como autênticos escudeiros do governo de plantão. Monocraticamente, desenham-se processos seletivos e favorecimentos cirúrgicos a agremiações políticas de estimação. O cardápio da parcialidade é vasto e servido à la carte.
Na cadeira presidencial da corte, assenta-se uma figura de viés ideológico manifesto, visivelmente sitiada. Perdido em meio ao fogo cruzado e pressionado por um mosaico de grupos de interesse que farejam a fraqueza institucional, o ministro Fachin tenta equilibrar pratos de porcelana em meio a um terremoto. O ambiente adquiriu contornos macabros, quase cirúrgicos. Claramente, a “veia safena” da corte foi rompida, e o Supremo colhe os frutos de sua própria metamorfose: deixou de ser um tribunal de juristas para se consolidar como um balcão político.
Mas, sejamos francos: essa é a fatura natural de um tribunal que decidiu abandonar os autos para fazer política de bastidor. É o pedágio cobrado pelas reuniões fora da agenda oficial, pelos jantares sigilosos em capitais europeias e pelas amizades perigosamente íntimas com o grande capital.
O espetáculo atinge o ápice do cinismo quando magistrados se veem forçados a declarar impedimento porque suas próprias estruturas empresariais orbitam o universo dos réus que deveriam julgar. É a privatização da magistratura operando sob a luz do dia, sem o menor pudor estético.
Eles julgam como deuses, operam com a destreza de lobistas, e os meros mortais pagam a conta do banquete. A Justiça brasileira pode até continuar fingindo que é cega, mas a máquina de moer conveniências nos bastidores tem visão noturna.

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