
OPINIÃO: Como o STF salvou Moraes até o natal

Por Gilaelson – 16 set 2026, 10h00 | Atualizado em 16 set
Se você ainda tinha alguma ilusão de que esta última terça-feira traria um pingo de justiça para o nosso caos jurídico, lamento informar: a esperança, como de costume, desceu ralo abaixo. A sessão que deveria decidir se Alexandre de Moraes seria investigado virou aquilo que Brasília faz de melhor — um espetáculo de ilusionismo processual.
O mestre de cerimônias? Gilmar Mendes. Com a agilidade de quem joga xadrez em quatro dimensões, o decano sacou maliciosamente uma questão de ordem para misturar tudo. Propôs unificar o caso com questionamentos sobre André Mendonça, sortear um novo relator e, claro, empurrar o mérito para o calabouço do esquecimento. E, quando Gilmar, aos brados, acusou Mendonça de agir politicamente, com um indignado “isso não se faz”, a hipocrisia quase pediu vista da própria sessão. Afinal, se Mendonça não estivesse tão nervoso, bastaria lembrar a fala de Gilmar em Paris, em 2023, quando creditou a eleição de Lula às decisões do próprio STF. Seria um constrangimento histórico — mas a memória na corte é seletiva, e o cinismo, onipresente.
O que se viu depois foi um circo sem lona. O presidente Edson Fachin, num papel vexatório e humilhante, assistiu passivamente à própria autoridade ser desidratada. Flávio Dino, percebendo a fragilidade da mesa, atacou sem cerimônia. Inovou na jurisprudência ao ameaçar pedir vista: “Se Vossa Excelência vai assistir a isso, eu não vou… Eu vou pedir vista”. Zanin, no seu papel de gênio do time, nem precisou inventar nada de novo: ele já tinha quebrado o rito da casa ao solicitar material probatório de inquérito de outro ministro diretamente à Polícia Federal; na sessão, estava ali apenas para garantir seu voto cirúrgico em cima da patente fragilidade da presidência e da parte acusatória. A peça foi tão bem ensaiada que, quando Fux bradou que havia uma PF paralela, os atores fizeram um silêncio sincronizado.
Nas posturas, o abismo foi total. Mendonça, que segurava as provas materiais com mãos frouxas, agiu com a firmeza de um estagiário em período probatório: boca seca, papelada desorganizada e um nervosismo de estreante. Do outro lado, Moraes, inabalável. Com postura de imperador, tom firme e semblante fechado, aniquilava qualquer ensaio de oposição. Para fechar a lona, Nunes Marques protagonizou uma cena surreal: visivelmente assustado com as revelações do portal Metrópoles — que expôs mensagens comprometedoras de um celular minutos antes da sessão —, alegou impedimento no microfone, citando o ano eleitoral no TSE, do qual é presidente. Um malabarismo defensivo que não convenceu nem os garçons do plenário.
A vergonha professada por Cármen Lúcia foi o último pingo de orvalho num deserto de cinismo. A contrição da ministra, contudo, é inútil diante da engenharia do adiamento. Com a manobra autoritária de Dino e seu inevitável pedido de vista, ganha-se a eternidade de noventa dias. O prazo vai desaguar providencialmente nas festas de fim de ano, período em que o país afoga suas mazelas no espumante barato e o tribunal cerra suas portas de carvalho. A menos que alguma regra oculta nas mangas de Fachin encurte o tempo desse sequestro processual, o roteiro já está impresso, encadernado e distribuído, enquanto a lenha queima lentamente no forno da Praça dos Três Poderes.
No fim das contas, a questão já não é saber se a massa vai assar a tempo do Natal, mas quantos de nós continuarão mastigando as bordas carbonizadas enquanto elogiamos o chef.

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