Obra de Mário Cravo Júnior, localizada em Vitória da Conquista, é um dos grandes símbolos do sudoeste baiano e será tombada como patrimônio municipal no dia 17 de agosto
VITÓRIA DA CONQUISTA (BA) – Quem passa pela BR-116, chegando a Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, pode avistar no alto da Serra do Periperi uma das imagens mais emblemáticas da cidade. Com uma estética marcante, braços abertos e expressão de sofrimento, o Monumento ao Cristo Crucificado tornou-se uma referência cultural, religiosa, artística e turística do município.
A obra, de autoria do renomado artista plástico baiano Mário Cravo Júnior, impressiona pelas dimensões. A escultura possui 17 metros de altura e 13 metros de largura. Considerando o pedestal de concreto armado em formato cônico sobre o qual está instalada, o conjunto alcança 33 metros de altura. O monumento está situado no ponto mais elevado da reserva ambiental da Serra do Periperi, a aproximadamente 1.110 metros de altitude.
Pelas suas dimensões e características, o monumento conquistense destaca-se entre as maiores representações de Cristo pregado na cruz existentes no mundo. Mais do que suas proporções, porém, é a originalidade artística da obra que chama a atenção.
Um Cristo diferente
Ao contrário das representações clássicas de Jesus crucificado encontradas em igrejas e monumentos religiosos, o Cristo de Vitória da Conquista possui traços fortes, angulosos e expressionistas.
Mário Cravo Júnior rompeu deliberadamente com a estética sacra tradicional de influência europeia. Em vez de representar um Cristo de feições serenas e idealizadas, o artista concebeu uma figura marcada pela dor, pelo desgaste físico e pela privação.
Produzida com fibra de vidro reforçada sobre estrutura metálica, a escultura apresenta peito, clavículas, rótulas e pés em traços rudes e marcantes.
A imagem estabelece uma forte relação simbólica com o povo nordestino. Segundo a análise técnica realizada pelo Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Vitória da Conquista, a figura remete ao homem sertanejo castigado pela seca, pelo sol, pela fome e pelos processos históricos de migração.
O parecer relaciona essa linguagem artística à tradição brasileira de denúncia social, estabelecendo diálogo com obras como Retirantes, de Candido Portinari, e com as reflexões de Josué de Castro em Geografia da Fome.
Uma história que começou em 1963
A história do Cristo de Vitória da Conquista começou muito antes de sua inauguração.
A obra foi idealizada em 1963, durante o primeiro mandato do então prefeito José Fernandes Pedral Sampaio, que contratou Mário Cravo Júnior para desenvolver o projeto.
Com a interrupção do mandato de Pedral pelo regime militar em 1964, o projeto ficou suspenso por quase duas décadas. Somente em 1980, durante a administração do prefeito Raul Ferraz, tendo Pedral Sampaio como secretário de Obras e Urbanismo, o projeto voltou a avançar.
Em maio daquele ano foi firmado contrato para execução do monumento. A construção exigiu uma grande operação de engenharia, incluindo estruturas para içamento das peças e fundações de concreto diretamente sobre a rocha da Serra do Periperi.
Finalmente, em 9 de novembro de 1980, o Cristo Crucificado foi inaugurado, passando a integrar definitivamente a paisagem e a história de Vitória da Conquista.
Mário Cravo Júnior e a força da arte baiana
A importância do monumento também está ligada ao nome de seu criador.
Mário Cravo Júnior foi um dos grandes representantes do modernismo brasileiro e um artista baiano de projeção internacional. Sua formação reuniu referências da tradição dos santeiros e experiências acadêmicas no exterior, incluindo aperfeiçoamento na Syracuse University, nos Estados Unidos, sob orientação do escultor Ivan Mestrovic.
No Cristo de Vitória da Conquista, Mário Cravo transformou materiais modernos e formas expressionistas em uma obra profundamente ligada à identidade regional.
Há ainda uma curiosidade arquitetônica: a estrutura cônica que forma a base do monumento remete visualmente à vegetação característica da região, especialmente aos cactos e mandacarus da Serra do Periperi, reforçando a integração entre arte, paisagem e natureza.
Patrimônio que domina a paisagem
Instalado em uma das áreas mais altas da cidade, o Cristo tornou-se um verdadeiro marco visual de Vitória da Conquista.
Para quem chega ao município pela BR-116, sua silhueta no alto da Serra do Periperi é uma das primeiras grandes referências da paisagem urbana. O local reúne características religiosas, culturais, ambientais e turísticas, oferecendo uma visão privilegiada da cidade e de seu entorno.
A Serra do Periperi, onde está instalado o monumento, também possui relevância ambiental e integra área protegida por legislação municipal.
Ao longo de mais de quatro décadas, o Cristo ultrapassou sua dimensão religiosa. Tornou-se parte da memória afetiva dos conquistenses e um dos principais cartões-postais da cidade.
Tombamento reconhece importância histórica e cultural
Esse patrimônio agora ganha um novo capítulo.
Em parecer datado de 3 de agosto de 2026, o Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Vitória da Conquista concluiu que o Monumento ao Cristo Crucificado reúne atributos históricos, artísticos, sociais, simbólicos e paisagísticos que justificam o reconhecimento de sua excepcionalidade patrimonial.
O parecer técnico é favorável ao tombamento municipal do conjunto, abrangendo não apenas a escultura, mas também o pedestal/capela cônica e o perímetro imediato do mirante na Serra do Periperi.
O documento recomenda ainda que o monumento seja apresentado aos órgãos responsáveis pelo patrimônio nos âmbitos estadual e federal — IPAC e IPHAN — para avaliação de eventual tombamento nessas esferas, em razão da relevância da obra para o modernismo brasileiro. Também é recomendada a elaboração de um plano de salvaguarda e conservação preventiva para proteger a fibra de vidro e a estrutura metálica dos efeitos do tempo.
Cerimônia será realizada no Dia Nacional do Patrimônio Histórico
A oficialização desse reconhecimento terá uma data simbólica.
Em comemoração ao Dia Nacional do Patrimônio Histórico, a Prefeitura de Vitória da Conquista realizará, no próximo dia 17 de agosto, às 10 horas da manhã, no próprio local do monumento, o ato de tombamento do Cristo Crucificado como patrimônio histórico e cultural do município.
A cerimônia representará um importante passo para a preservação de uma obra que atravessa gerações e que faz parte da identidade de Vitória da Conquista.
Mais do que uma gigantesca escultura no alto de uma serra, o Cristo de Mário Cravo Júnior reúne arte, fé, história, cultura, identidade nordestina e patrimônio ambiental.
Do alto da Serra do Periperi, o Cristo Crucificado continua de braços abertos sobre Vitória da Conquista — não apenas como símbolo religioso, mas como testemunho da criatividade artística baiana e da história de um povo.
Agora, com o tombamento municipal, esse patrimônio ganha proteção e reconhecimento para continuar contando sua história às próximas gerações.
Portal VemVê Brasil
Turismo, cultura, história e as riquezas que fazem do Brasil um país único.

Sem comentários! Seja o primeiro.